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Autora do Artigo: Dra. Tatiana de P. M. Gamella

Identidade, Preconceito e Discriminação Exemplificados Através de Fragmentos Literários


Irei discorrer sobre os temas: Identidade, Preconceito e Discriminação.

A Psicologia Social trata do homem que está sempre em construção, pois o homem é um ser sociável. Para que o homem viva em meio social é necessário que ele tenha uma identidade construída, e essa identidade é construída ao longo do tempo, e estará sempre em construção.

Para a Psicologia Social, a identidade é um instrumento que permite pensar a articulação do psicológico e do social em um indivíduo. Ela exprime a resultante das diversas interações entre o indivíduo e seu ambiente social, próximo ou distante. A identidade social de um indivíduo se caracteriza pelo conjunto de suas vinculações em um sistema social: vinculação a uma classe sexual, a uma classe de idade, a uma classe social, a uma nação, e etc. A identidade permite que o indivíduo se localize em um sistema social e seja localizado socialmente (CUCHE, 1999, p.177).

Ou seja, a identidade se articula com representações e sentidos que o indivíduo desenvolve sobre si mesmo (há relação entre identidade e representações) a partir de suas vivências. É um processo contínuo de auto-definição. Como bem representa Clarice Lispector, (em sua obra extraída do Livro: Literatura Portuguesa em Curso) no seguinte fragmento literário: …"Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma  que  poderia  fazer  mal  aos  outros  e  a  mim.  E  com isso cortei também a minha força. Ouça:  respeite  mesmo  o  que é  ruim  em  você   -   respeite  sobretudo  o  que  imagina que  é ruim  em  você  -  não  copie  uma  pessoa ideal,  copie  você  mesma  -  é  esse  seu  único meio de viver"…

Segundo Bock (1999), a identidade também pode ser considerada a síntese pessoal sobre si  mesmo,  incluindo  os dados  pessoais  como: cor, idade e sexo, permitindo assim uma representação sobre si mesmo. Afirma Cuche (1999), identidade não diz respeito apenas aos indivíduos, todo grupo é dotado de uma identidade, e essa identidade corresponde à sua definição social, o que permite situá-lo no conjunto social. Assim, pode-se entender que identidade implica ao mesmo tempo exclusão e inclusão, pois ela identifica o grupo social.

Conforme Cuche (1999), na exclusão ou na inclusão são formados grupos, os membros de cada grupo são “idênticos” sob certo ponto de vista, e são distintas dos outros grupos, que são formados por membros diferentes do primeiro grupo sob o mesmo ponto de vista. A formação desses grupos implica também uma forma de discriminação.

Extremamente ligado ao tema identidade encontram-se os conceitos de discriminação e preconceito.

O preconceito é uma irracionalidade racional, por mais paradoxal que a formulação pareça. Ele se volta contra as chamadas minorias de qualquer espécie. É evidente, contudo, que o total de pessoas atingidas pelo preconceito constitui a maioria numérica da sociedade (PINSKY, 2000, p.106). Neste trecho o autor está nos explicando que o preconceito enquadra toda uma minoria, e isso ocorre através da generalização. É necessário ressaltar que o preconceito também seria um prejulgamento decorrente de uma generalização não demonstrada. Na maioria das vezes o preconceito torna-se tão forte que acaba assimilado pela própria vítima.

Diz  Pinsky  (2000)   que    o    mecanismo    do    preconceito    funciona   quando estabelecemos uma expectativa de comportamento coletivo, mesmo sem conhecermos os grupos ou mesmo os membros dos grupos sobre o qual “apontamos” e julgamos.

O tema discriminação anda em linhas paralelas com o tema preconceito, torna-se então necessário por fim comentar. E quando se fala em discriminação é importante lembrar que trata-se de diversos “tipos” de discriminação, como: raça, cor, sexo, preferência sexual, religião,  classe  social  e  etc…

Discriminação segundo Ferreira, seria ato ou efeito de discriminar, faculdade de distinguir ou discernir; discernimento; separação, apartação, segregação. O discriminador seria que discrimina; discriminante, aquele que discrimina.

O  trecho  do  Poema  a  seguir  expressa  com veracidade como sente-se uma pessoa que é discriminada. Poema Em Linha Reta(heterônimo de Fernando Pessoa, por Álvaro de Campos, obra extraída do Livro: Literatura Portuguesa em Curso ):

…"Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se o oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Poderão ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza"…

Este poema nos mostra toda a angústia e sofrimento que uma pessoa que sente ser discriminada vivencia. Mostra-nos também como é um sentimento muito triste e sombrio, pois o indivíduo sente-se diferente e excluído de grande parte da sociedade.

O indivíduo que é discriminado vivencia a angústia de sentir-se menos importante para a sociedade, e para as pessoas de seu convívio como parentes e amigos. Acaba vivendo uma situação de não sentir-se amado, valorizado e respeitado pelo “outro”,  esse sentimento lhe rouba o lugar de sentir e viver o direito que todo o cidadão tem de igualdade, liberdade, de ser amado e amar, de ser respeitado e respeitar, e de ser valorizado.

 
Referências Bibliográficas

BOCK, A.M.B. Psicologias – Uma Introdução ao Estudo da Psicologia. 13ª ed. São Paulo, Saraiva, 1999.

CUCHE, Denys. A Noção de Culturas nas Ciências Sociais. Bauru, Verbum, 1999.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Básico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994.

PINSKY, Jaime. Brasileiro(a) é Assim Mesmo – Cidadania e Preconceito. 6ª ed. São Paulo, Contexto, 2000.

RIEDEL, Dirce; REZENDE, Beatriz; SILVA, Nilza; GOMES, Renato. Literatura Portuguesa em Curso. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1975.


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