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Autora do Artigo: Dra. Débora de P. M. Gamella

O Existencialismo em Sartre


                 Jean Paul Sartre foi sem dúvida figura proeminente dentro do movimento filosófico existencialista.

Dotado de grande versatilidade e a astúcia intelectual, podia dividir-se e combinar a sua capacidade de pensar filosoficamente e seus talentos de artista. Sendo assim, os conceitos mais abstratos e específicos da filosofia alcançaram o publico leigo com facilidade através dos seus romances, contos e peças teatrais.

A obra que projetou Sartre mundialmente foi o Ser e o Nada, publicada durante a 2a guerra mundial. O Ser e  o Nada foi tomada por muitos como uma obra de grande dificuldade de compreensão  e como havia no filosofo a intenção de divulgar suas idéias a um público mais amplo Sartre pronunciou uma conferência intitulada  “O existencialismo é um humanismo”, que se tornaria um dos textos fundamentais da sua filosofia.

 Em “O existencialismo é o humanismo”, Sartre baseia-se num postulado: a existência do homem precede sua essência. Isto é, o fato de existir,de nascer,não lhe dá, de imediato, uma essência humana. Esta tem que ser conquistada, criada a posteriori.

A diferença entre essência e existência é um dos tópicos abordados na conferência e consiste em: a essência de uma coisa é aquilo que a coisa é. A existência seria algo de concreto, enquanto a essência é algo abstrato, conforme Sartre (1997).

Que significa dizer que a existência precede a essência? Significa dizer que o homem primeiramente aparece, existe, surge no mundo e só depois é que se determina a ser isto ou aquilo. O homem tal como o concebe o existencialista, não é definível, ao nascer, pois ate então não é nada como realidade humana. Só depois será alguma coisa.

“A existência que aqui está implicada é o homem, que se torna o centro de atenção encarado como ser concreto das suas circunstâncias,no seu viver, nas suas aspirações totais.centrado nos problemas do homem o existencialismo penetra nos seus pensamentos concretos nas suas angustias e preocupações nas suas emoções interiores, nas suas ânsias e satisfações” [1]

O homem segundo a concepção existencialista em Sartre não é predeterminado, é livre. A existência precede a essência justamente pela possibilidade de escolha e liberdade dada ao homem. A sua essência surge como resultado de seus atos, daquilo que faz a si mesmo. O homem segundo Sartre, é aquilo que projeta ser , e consequentemente a isto é livre. O homem diferentemente dos outros seres é livre. A cada instante o homem deve escolher o que será no momento seguinte. O homem, resume Sartre, deve ser  inventado todos os dias.

A escolha que faz entre as inúmeras possibilidades é que define a essência do homem. Na escolha há determinação dos valores, sob os quais organizará sua vida, sendo assim assume a responsabilidade por tudo o que fizer. A liberdade fundamenta os valores, e sendo o homem livre é indubitavelmente responsável por sua escolhas e pelo que faz, diz Sartre (1997).

No pensamento existencialista, a liberdade é a capacidade do individuo de decidir sobre sua vida fazendo sua escolhas e responsabilizando- se por elas.

Ao afirmar que o homem é responsável por si próprio não se pretende considerar que ele é responsável por sua individualidade, mas de certa maneira por toda a humanidade. Ao construir seu projeto, a determinação é valida para o próprio homem e também para os outros. O social esta necessariamente incluído, pois o homem nunca esta desvinculado deste. A responsabilidade, portanto assume dimensões grandiosas, pois envolve toda a humanidade.

 Para Sartre, o valor do ato está na responsabilidade da escolha. O existencialismo sofre severa crítica advindas principalmente de marxistas e cristão. Para defender sua postura filosófica, Sartre na conferência  “O existencialismo é um humanismo”, explica que o existencialismo é uma moral de ação porque firma a supremacia dos atos e é um humanismo por ser a única filosofia que capacita o homem a viver a vida com dignidade, à medida que responsabiliza-o por suas escolhas.

Sartre aponta para a subjetividade como sendo marco inicial de toda  doutrina filosófica  e, é esta subjetividade, segundo ele, que impede a coisificação do homem, afirmando-o em sua condição de sujeito.

O homem do existencialismo, segundo Sartre, é angustia. Angústia decorrente do reconhecer-se livre e responsável. O  individuo se angústia por se ver na posição de escolher seu destino.

Sartre postula maneiras diferenciadas  de aprender a existência pessoal. No seu roteiro ontológico três níveis de existência são importantes o em - si, o para - si e o para - outrem. Existir, segundo Sartre, é ter consciência desta “existência”, de um ser existente.

 O “para–si “aponta simultaneamente a consciência de si, a consciência pura e a consciência de alguma coisa. O ”para–si” se  opõe  ao “em–si” , o “para-si” é um “sujeito” e o “ em–si” não o é.  O em–si é conhecido, porém sólido e inerte, simplesmente é.  Um ser “em–si” não tem potencialidade nem consciência de si ou do mundo ele apenas é, afirma Sartre (1997).

A consciência humana possibilita o individuo a ter um conhecimento e respeito de si próprio e do mundo que o cerca. Esta forma de ser é o para–si.

“Assim, o nada é esse buraco no ser, essa queda do Em–si rumo a si, pela qual se constitui o Para-si. Mas esse nada não pode “ ser tendo sido” salvo se a sua existência emprestada for correlata a uma ato modificador do ser. Este ato perpétuo pelo qual a Em-si  se degenera em presença a si é o que denominaremos ato ontológico”[2]

Segundo Sartre (1997) , a capacidade do “para –si” de modificar as coisas, de imaginar o nada, é a prova de sua liberdade. Se o “para –si” não existisse, toda realidade se consumiria ao “ em – si’. É o  nada que  dá fundamentação à liberdade.

A liberdade, portanto para Sartre é nutriz de angústia do “para –si”. Em sua célebre afirmação: o homem está condenado à liberdade, Sartre coloca de maneira paradoxal a convivência entre os extremos condenação e liberdade, como será possível a este homem escapar disto?

Na leitura sartreana a escapatória está no comportamento de má-fé. A má-fé seria a atitude de fingir que escolhe, na realidade sem escolher. A má-fé diferentemente da mentira é algo que atinge ao individuo e não ao outro. O indivíduo  mascara a  verdade  para si . A má fé é uma forma de fugir à  responsabilidade, e de escapar de sua própria auto-determinação.

Como o “para –si” relaciona com os demais “ para –si’?. Para Sartre, o ser para – outro é a estrutura  indispensável do “para –si ‘, porque o liga ao “em –si’. O homem ao relacionar-se percebe que sua liberdade é tolhida pela liberdade do outro.

Na peça “Entre quatro paredes” (Jean Paul Sartre - 1944), existem três pessoas condenadas ao inferno e, estes personagens descobrem que a condenação baseia-se no fato de que não é possível livrar-se do olhar, do pensamento do outro. Uma das figuras da peça, Inês diz  a Garcin: “...você é um covarde, Garcin, porque eu quero, que seja. Eu quero, compreende? Eu quero! No entanto, veja que fraquinha que sou, um sopro. Sou apenas o olhar que está vendo você, o pensamento incolor  que está pensando em você...”

Mas a frente Garcin afirma: “...então, isto que é o inferno? Nunca imaginei...não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha...Que brincadeira! Nada de grelha o inferno...são os outros...”

Portanto, num esforço hercúleo todo homem só pode se perceber como ser existente através do olhar do outro, e sem a convivência isto não seria possível. Sem a convivência não seria possível a realização dos próprios projetos e sem esta o projeto não faria sentido algum.

“ O outro, como unidade sintética de suas experiências e como vontade, tanto como paixão, vem organizar minha experiência. Não se trata da pura e simples ação de um número incogniscível sobre minha sensibilidade, mas da constituição, por um ser que não sou eu, de grupos conexos de fenômenos no campo de minha experiência. E esses fenômenos, à diferença de todos os outros, não remetem a experiências possíveis, mas a experiências que, por principio, estão fora de minha experiência e pertencem a um sistema que me é inacessível. Mas, por outro lado, a condição de possibilidade de toda experiência é a de que o sujeito organize suas impressões em sistema conexo” [3]

Para Sartre,não existe o predeterminado como instância, pois o que há é o nada, é o por vir. O homem é livre porque não há estaticidade, ele não é a não ser enquanto presença para si, e a liberdade esta no nada, o que canaliza as possibilidades de se fazer ao invés de ser.

“...se a negação vem ao mundo pela realidade humana, esta deve ser um ser capaz de realizar  uma  ruptura  modificadora  com o mundo e consigo mesmo; e tínhamos estabelecido que o possibilidade permanente de modificar o que sou e m forma de “ter –sido”  implica para o homem um tipo de existência particular.  Podemos então determinar, a partir de análises  como a da má-fé, que realidade  humana é o próprio nada. Ser, para o para –si, é modificar o em –si que ele é. Nessas condições, e liberdade não pode ser senão esta modificação” [4]

Na visão sartreana o homem pode até ser vil, mas tem a liberdade de escolher o seu caminho, de se fazer. Liberdade e existência estão em associação íntima. Diferentemente de outros pensares filosóficos, para Sartre, não nos tornamos livres, a liberdade é natural, espontânea, imediata à existência. Na liberdade encontra-se a convergência de todas as possibilidades, desde tomar para si a própria subjetividade, à busca e descoberta de transcendência.

“Estou condenado a existir para sempre para-além dos móveis e motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Significa que não se poderia encontrar outros limites à minha liberdade além da própria  liberdade, ou, se preferirmos, que  não somos livre par  deixar de ser livres. Na  medida em que o para – si quer esconder  de si seu próprio nada e  incorporar o em –si  como seu verdadeiro modo de ser, também tenta esconder de si sua liberdade” [5]


[1] Enciclopédia Luso – Brasileira de Cultura. Lisboa: Editora Verbo, 1969, p. 114, vol.VIII.

[2] SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Rio de janeiro: Vozes, 1997, p.127.

[3] SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Rio de janeiro: Vozes, 1997, p.295.

[4] SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Rio de janeiro: Vozes, 1997, p.543.

[5] SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Rio de janeiro: Vozes, 1997, p.544.


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